
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
Dadaísmo 01

sábado, 9 de agosto de 2008
Para dizer adeus

Da janela, vejo a tarde esvaindo-se em sangue . . .
Uma tristeza salpicada de púrpura
Encharca-me a alma . . .
Ah, triste como uma rua deserta na madrugada!
As rosas que enfeitavam o jardim de nosso amor
Feneceram,
O fogo da lareira que aquecia nossa paixão
Extinguiu-se;
Restam as cinzas de nossos propósitos,
A lembrança de nossas noites diante da lareira,
A nostalgia embalada ao sabor da música de Chopin
E uma saudade antecipada de quem fomos . . .
Partirei sem bater a porta
Para evitar o desgaste da despedida,
Para evitar as palavras vãs,
Para não lamentarmos os escombros de nosso amor . . .
Desculpa-me os erros,
Desculpa-me as faltas,
Desculpa-me se não soube o que fazer
Para acalentar teus anseios,
Desculpa-me pelas vezes em que me deixei levar
Pela correnteza do egoísmo,
Desculpa-me se não soube amar-te:
Lamento muito por nós dois,
Mas meu coração não se contenta com nada,
Meu coração não aprendeu nada . . .
Meu coração velho casarão sem portas nem janelas,
Meu coração catedral fechada,
Meu coração Saara ao meio-dia,
Meu coração terra de miragens,
Meu coração oásis no meio do nada,
Meu coração ave de arribação . . .
Desculpa-me as mágoas . . .
Vou para não voltar:
Meu destino é caminhar sempre sozinho . . .
Adeus! Adeus! Adeus! . . .
Oliveira
sexta-feira, 23 de maio de 2008
verbete 07

Outono - 1. monotonia de aldeia adormecida; 2. dolência de sino
na hora crepuscular; 3. botão de rosa amarelecida entre as
páginas de um livro de poesias; 4. acordes longínquos de violino
na tarde vazia; 5. paisagem esmaecida em púrpura gasta;
6. folhas-mortas rodopiando atarantadas ao sabor do vento;
7. nostalgia empoeirada do velho sótão da quinta de minha
infância perdida; 8. decorrer sonolento das horas devorando o
tempo; 9. angústia de charco ao pôr-do-sol; 10. solidão das árvores
despidas ao luar; 11. ponte entre a nostalgia e o tédio.
Oliveira
terça-feira, 20 de maio de 2008
Momentos de ser . . .

A criança caminha feliz no mundo da fantasia,
De mãos dadas com a inocência;
Constrói seu caminho com a magia dos sonhos;
Sorri, porque tudo é esquecimento e encantamento . . .
O adolescente cai no abismo da realidade,
Apavora-se diante de um mundo conflitante,
Alia-se à rebeldia para combater o inimigo imaginário:
Com sua metralhadora nas mãos, lança projéteis de ódio
Para todos os lados, numa fúria de mar em maré-cheia -
Quantos desatinos, quantas batalhas perdidas! . . .
O adulto traz em si a mansidão do mar em maré-vazante,
Tenta conciliar seu mundo interior,
Cuida de suas feridas,
Arruma os escombros de seu império ignoto,
Tem a prudência como conselheira,
Procura viver em paz consigo mesmo e com o mundo . . .
O velho adquiriu a sabedoria e
Caminha tranqüilo,
Rumo ao pórtico que se abre para o infinito,
Como um rio que corre para o mar,
Alheio aos rumores cotidianos,
Senhor de seu mundo,
Senhor de si . . .
Oliveira
Ah, teu corpo! . . .

Teu corpo transbordante de sensualidade insinua-se,
Sem que tenhas consciência disso,
E desperta-me a luxúria, a libido . . .
Entre teu corpo e meu desejo dele,
Ergue-se um imenso mar de sargaços
Com naus que partem para o indefinido . . .
Sinto-me como alguém que morre de sede diante do mar:
Ver teu corpo, mas não poder tocá-lo, meu desejo naufraga
Num oceano noturno sem faróis para me guiar . . .
Fabrico sonhos de possuí-lo;
Imagino tê-lo desnudo diante de mim,
Por entre minhas mãos que percorrem lassas
A maciez de pêssego e se detêm em cada detalhe . . .
Transbordamento de erotismo:
Êxtase . . .
Ah, que seria teu gozo, meu gozo,
Teu gozo em meu gozo . . .
Oliveira
terça-feira, 6 de maio de 2008
Tarde de domingo

Solidão . . .
Alheados de si.
quinta-feira, 24 de abril de 2008
Saudosismo

Saudade! . . .
Quanta saudade! . . .
Saudade cada vez mais tanta! . . .
Saudade vestida com o manto outonal,
Saudade orquestrada com os acordes de piano e violinos;
Saudade de minha infância extraviada na curva do tempo
Que se perdeu na poeira dos propósitos mortos;
Saudade até do que não foi . . .
Saudade do velho casarão da quinta,
Saudade da velha quinta com seu imenso quintal
Onde brincávamos sob a sombra de frondosas mangueiras;
Saudade da velha jaqueira onde costumava fabricar sonhos -
Ah, meus sonhos perderam-se pelos descaminhos desta vida! . . .
Saudade dos fins de tarde hibernais
Que decorriam sonolentos, brumosos . . .
Saudade das noites intermináveis, povoadas de relâmpagos, trovões,
E o vento soprava furioso, despertando em nós os fantasmas do medo;
Saudade das pipas coloridas que pairavam etéreas no azul
Quase inexistente do céu de julho;
Saudade das tias maternas que nos visitavam,
Trazendo novidades para nosso paladar;
Saudade do jardim repleto de papoulas e rosas de várias tonalidades,
Dos cachos de flores amarelo-ouro de minha acácia primaveril,
Dos girassóis de olhos arregalados de espanto,
Das borboletas matutinas de cores extravagantes,
Voejando pelo jardim –
Ah, meu jardim de um colorido festivo! . . .
Dos beija-flores dançando seu balé rítmico
Ao som alucinante de tambores tribais,
Eco longínquo de mãe África selvagem . . .
Saudade das noites juninas com suas fogueiras,
Saudade dos carrosséis girando fábrica de sonhos
Nos festejos do padroeiro: Bom Jesus dos Passos;
Saudade dos mortos queridos que fui perdendo
No desenrolar monótono dos dias . . .
Saudade dos sonhos que se deterioraram,
Da inocência que se diluiu em púrpura . . .
Saudade! . . .
Quanta saudade! . . .
Saudade do tudo quanto perdi irremediavelmente! . . .
Oliveira

