domingo, 2 de março de 2008

Meu coração



Meu coração cais sem embarcações;
navio encalhado ao largo;
âncora esquecida no fundo do mar;
barco velho de quilha virada numa praia deserta.
Meu coração escombros de um império ignoto;
salão suntuoso que guarda a memória pomposa
de um tempo que ruiu;
cárcere irremediavelmente fechado -
o carcereiro atirou a chave ao mar.
Meu coração aldeia saqueada por bárbaros;
cidade arrasada pela fúria cega da natureza;
beco escuro onde se cometem atos torpes;
cacimba vazia em leito de rio seco.
Meu coração gaveta por arrumar;
baú empoeirado no sótão da quinta;
rosa murcha guardada num livro de poesias;
folhas-mortas nas alamedas do esquecimento;
porão de escombros do castelo de areia que desmoronou.
Meu coração pórtico partido para o infinito;
ponte que liga o nada a coisa nenhuma;
cortina de bruma no horizonte incerto da felicidade;
livro do desassossego esquecido num banco de praça;
taça de cristal espatifada no chão da lógica;
mala esquecida no bagageiro do trem da alegria . . .
Meu coração grito de desespero sem eco nas cordilheiras da alma;
lareira apagada no inverno de ser . . .
De ser qualquer coisa:
fome de retirante,
sede de flagelado,
ânsia de náufrago,
delírio de bêbado,
angústia da tarde que finda ensangüentada . . .

Oliveira

6 comentários:

Maria Flor! disse...

Olá Poeta Ternura,

Meu coração grito de desespero sem eco... quantas e quantas vêzes gritamos no silêncio do coração aflito? Belissíma - Maravilhosa!!!
Parabéns pela inspiração.

Beijos

fabiano disse...

coração.. sentimentos.. são coisas bem dificeis de explicar mas realmente a melhor definição é "gaveta por arrumar"

Branco Di Fátima disse...

Ô poeta Oliveira... é sempre um prazer te receber a sua voz no meu blog... no nosso blog... O poema Meu Coração é lindo! Tem ritmo próprio... encanta o leitor. O nosso grande problema é difundir a idéia dos nossos blogs para outras pessoas. Vou passar seu endereço pra meus amigos. Temos que divulgar essa idéia. Muita luz poeta. abraços

Histórias e Versos disse...

Uau. Mais uma vez, belíssimo José. Como consegue ser tão profundo e tão poético? Este texto está realmente fantástico, maravilhoso.
Estou aqui, mais uma vez, de boca aberta. Parabéns. Mais um clássico da literatura brasileira. Não tenho dúvida.Está muito lindo.
Um abraço fraterno,
Marcos Vinícius.

Anderson disse...

Olá amigo!
Passei rapidinho pra dar uma acompanhada nas suas novas obras, estão muito boas, especialmente essa!
abraço amigo, continue com esse seus textos de ótima qualidade.

Bruno Philipppsen disse...

Como já falei no e-mail, sua poesia está muito boa! As imagens que o eu-lírico evoca para simbolizar o coração estão muito lindas e coerentes! Gostei muito do verso final, que dá uma pista do momento de concepção do poema e pode dar indícios de inpiração. Fins de tarde reaçmente são muito melancólicos e nos levam a reflexões como essas.
Grande abraço!