sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Estrangeiro



Quando me deparo com minha imagem refletida no espelho,
Pasmo diante do abismo que se desenha entre quem sou e o outro que me olha.
Vejo-me dominado por um estranho que tem o poder de arrancar,
Do mais profundo de meu ser, sentimentos e sensações que me deixam perplexo.
Amedrontado, desvio meu olhar. Inútil.
Ele continua a olhar-me dentro de meus olhos com uma intensidade embriagadora;
Seus olhos hipnotizam-me. Já não sou eu.
Viajo outro por seu mundo interior. . .

Percorro paisagens deslumbrantes através do espelho cristalino de sua visão
Que me guia por campos verdejantes, jardins floridos, fontes de águas límpidas,
Sinfonia de pássaros, montanhas que se insinuam azuladas no horizonte impreciso.
Sou um menino camponês de sorriso largo, gestos espontâneos, voz doce
Que celebra a natureza com cânticos que nascem do cotidiano do povo
Que habita as aldeias longínquas e pacatas.
Apanho flores campestres multicoloridas, corro pelos vales e sou feliz.

Outras vezes seus olhos desvendam verdades secretas que escondo de mim mesmo.
E embora eu relute em ceder, ele me joga na cara a dura e temível verdade.
Sou uma paisagem sem pássaros, sem árvores nem água;
Uma paisagem calcária e sobrenatural,
Onde a luz desce em ondas perpendiculares multiplica certas cores e seus reflexos.
Ao longe, o contorno das montanhas com seus picos nevados.
Nu e sozinho como um cais na madrugada.
Triste como uma bela cidade obscurecida pela bruma.
Em que parte do percurso perdi-me de mim?
Não sei. . . Caminho ignoto, olhos marejados, coração partido. . .


Oliveira

2 comentários:

Priscila Lopes disse...

Bah... que sensibilidade bem arquitetada.

Apareça no Cinco Espinhos. O prazer é nosso.

Abraços!

Maria Flor! disse...

Meu lindo,
Teu blog é de um esilo único, maravilhoso! Adorei tudo que li, que senti. Você emociona!
Parabéns! Parabéns! Parabéns!

Beijos