quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Prece



Meu Deus, livrai-me de mim!
Livrai-me dos fantasmas que habitam os porões de meu ser;
Livrai-me do ódio que, às vezes, emerge
Das profundezas de quem sou,
Com fúria de vulcão querendo tudo destruir;
Dai freio a minha língua que, às vezes,
Fere impiedosamente como fio de navalha.

Abrandai, adoçai, enternecei meu pobre coração
Que não aprendeu nada,
Que não sabe o que é sossego,
Que sangra copiosamente,
Que grita desesperado no silêncio da noite vazia,
Que se transformou num deserto sem oásis,
Que está fechado pra o mundo . . .

Dai-me, Senhor, forças e luz
Para suportar o pesado fardo de ser assim,
De querer, geniosamente, que seja assado;
Perdoai-me a teimosia, o hermetismo;
Segurai minhas mãos para que elas não executem ações
Das quais eu possa envergonhar-me . . .

Iluminai-me para que eu não deixe morrer
A criança que há em mim,
Concedei-me a graça de que através dos olhos dela
Eu possa enxergar o mundo em sua plenitude
E as pessoas com humildade, caridade e fraternidade.
Meu Deus, tende compaixão, piedade e misericórdia de mim!

Oliveira

sábado, 17 de janeiro de 2009

Hibernal 04 Para Marcos Vinícius


Continua a nevar estupidamente . . .
Fecho os olhos, busco evadir-me desta realidade que me aprisiona . . .
As praias que conheci . . .
Percorrê-las, dava-me a sensação de realização plena,
De total posse de mim . . .
Talvez, numa época distante, fora feliz à beira-mar:
Sinto o cheiro daquele mar de sargaços,
Beijando as dunas sob um céu de lua-cheia e estrelas cintilantes;
Diante daquele mar, sonhei viver um grande amor.

Tudo mentira.
Meus sonhos naufragaram agonizantes no mar das desilusões,
Numa noite sem luar e sem estrelas . . .
Passei a caminhar pela orla marítima,
Movido pela sede insaciável de encontrar os escombros de meus sonhos . . .

Eis-me diante do velho cais de pedra-solidão;
Na tarde triste, o ocaso ensangüentado . . .
Ao largo de mim, embarcações vestidas de alheamento . . .
Um rumurejo longínquo chega até mim,
Vem do porão de escombros de meus sonhos naufragados . . .

Pouco me importa que a cidade pulse, agigante-se
À espera da noite que chega sorrateira . . .
Aqui, o mar, também, pulsa e agiganta-se
De encontro às pedras do cais,
Numa sinfonia de lamentos de fera indomável.
Permaneço imóvel, hipnotizado,
Meus sentidos estão postos na imensidão marítima
Onde as horas decorrem lânguidas, lassas . . .

Meu Deus, meu Deus, meu Deus! . . .
Neva abundantemente . . .
Quisera esquecer-me de mim,
Abandonar-me, entregar-me ao entorpecimento,
Fingir-me outro,
Exilar-me nas profundezas do desconhecido
E conhecer-me, pasmar diante de quem sou no reverso do espelho . . .
Neva, neva, neva estupidamente . . .

Oliveira

sábado, 27 de dezembro de 2008

O muro 02





Sou eu sozinho neste mundo e este outro,
Que sou eu, mas distinto de mim,
Entre duas paisagens
Que se comprimem contra este muro -
Tão velho e tão o mesmo de então, mas coberto de hera -
Num confronto entre o grito de vida
E o ser citadino perturbado
E corrompido pelo convívio social.
Sempre esse muro, símbolo de duplicidade vital,
Sendo momentaneamente ponto de intersecção
E de separação dessa duplicidade:
Conjugando finito e infinito, poucas vitórias e muitas derrotas,
Sendo expressão de meu limite material e humano.
Vivo a sonhar, alternadamente,
Dentro e fora desse muro:
Aquém do muro do quintal de minha infância
Minha ingenuidade pueril,
O desconhecer o mar que me levará à viagem-retorno,
O ver as naus singrarem para o indefinido,
Parado diante do cais de pedra-solidão,
Sonhando com outros cais de onde, talvez,
Tenha partido ébrio de sonhos,
Antes de mim, feliz por desconhecer . . .
Além do muro começa vida:
A consciência angustiosa da morte,
O contacto com o infinito,
A impossibilidade de voltar atrás,
O conflito entre o que se perdeu no tempo
E a luta vã de querer despir-me de quem sou . . .
Oh, Deus, quero esquecer-me
Do modo de lembrar,
Quero esquecer-me de saber
A diferença entre ser e viver! . . .

Oliveira

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Hibernal 02 Para Marcos Vinícius





Neva copiosamente! . . .

Soam quatro hora no relógio da sala;
Cada badalada dói-me
Como um punhal cravado em meu peito.
Entrego-me ao delírio . . .
A passagem das horas vai devorando a vida,
Corroendo a existência fadada à decrepitude,
Desmoronando os sonhos . . .
Abro o pequeno baú com cartas, fotos
Que compõem a colcha de retalhos
Dos sonhos vividos para além da distância,
Perdida na espiral do tempo . . .


Da torre de meu abandono, fabriquei sonhos,
Conquistei impérios,
Explorei a vastidão dos mares . . .
Hoje, na torre de meu abandono,
Rememoro os sonhos desfeitos,
Os impérios que não conquistei,
A vastidão dos mares que não explorei
E amargo o remorso de não ter sabido
O que fazer de mim . . .

Desavim-me pelas vielas da vida, ávido de anseios;
A areia fina de meus sonhos desfeitos
Escoou por entre meus dedos lassos;
Entorpeci-me de ópio, de vodka, de blues e de desenganos
E sempre fui palhaço nos vestígios interiores de minha vida . . .

Órfão da vida, mendigo qualquer coisa que me falta
E que, talvez, jamais encontre . . .
Vagueio pela sala quase embriagado:
O ópio, a vodka e o blues transportam-me
Para um mundo indolor,
Ainda que equivocadamente.
Pouco me importa!
Pelo menos a dor não passa de um substantivo abstrato.
Sinto-me imunizado, até rio da possibilidade de haver dor.
Ah, o ópio! Que agradável seu aroma
E que deslumbrante sua essência viajando por meu corpo
E inundando meu cérebro com sua potência onírica,
Explodindo em fogos de artifício:
Delírio das grandezas exposto ao gozo sublime!

Neva, neva, neva tristonhamente! . . .
A solidão emerge sorrateira do abismo de quem sou,
Apodera-se altaneira do brilho que alumia meus dias,
Cerra a cortina de bruma,
Envolve-me, conduz-me ao degredo,
Incapacitado de um gesto de discordância . . .

Oliveira

Hibernal 01 Para Marcos Vinícius


Neva, neva, neva . . .

Uma cortina de bruma desaba, estupidamente,
No palco de minha vida,
Como se fosse um lânguido entardecer,
Um dolente crepúsculo com repiques de sinos ao longe . . .
Uma angústia despropositada encharca-me
Com seu odor de flores murchas,
Com seus soluços contidos . . .


Meu coração chora a pompa de outrora felizes . . .
Outrora, havia rosas, rosas de todas as cores
No jardim de minha infância perdida:
As rosas feneceram,
O jardim sucumbiu,
Desavim-me pelos descaminhos da vida . . .

Meu coração veste-se de negro,
Meu coração perdeu o encanto pela vida,
Meu coração pulsa sem alegria,
Meu coração é um velho casarão desolado . . .

Os dias decorrem hibernais . . .
Neva abundantemente! . . .
As ruas estão desertas, ébrias de brancura . . .
Na lareira, crepitam as achas de sândalo
Que inundam a sala com seu aroma primaveril.
Que desconsolo! . . .
Que frio na alma entorpecida de solidão! . . .


Neva incessantemente! . . .
Lembro-me de que em minha infância,
Quando iniciava o inverno,
Apoderava-se de mim um sentimento obscuro,
Um misto de medo e pressentimento negro
Ao ver as árvores despidas de sua folhagem.
Faz tanto tempo, mas ainda hoje,
Experimento a mesma estranheza,
Quando me quedo diante da janela
E miro esta brancura mortiça,
Deusa desta desolação infinita! . . .

Continua a nevar . . .
Cerro as cortinas, rumino lembranças . . .
O manto negro da noite cobre-se de neve;
A noite parece mais assombrosa . . .
Minhas sensações são uma avalancha
Numa queda vertiginosa para o nada . . .

Oliveira

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Dadaísmo 01


Sem nós dois, o que resta sou eu,
Eu assim tão só.
Assim eu não vivo,
Eu morro pensando no nosso amor.
A saudade existe
E se vem, é tão triste!
Entenda que assim eu não vivo.
Olhei a vida e me espantei:
Eu tenho mais de vinte anos,
Eu tenho mais de vinte muros,
O sangue jorra pelos furos.
Eu quero as cores e os colírios –
Meus delírios.
Invento um cais
(Saveiros partem embandeirados para destino-solidão),
Invento mais que a solidão me dá,
Invento o mar,
Invento em mim o sonhador.
Sem teu amor, eu não posso viver.
Ah, o amor, quando é demais, leva a paz,
Entreguei-me sem pensar,
Entenda-me,
Assim eu não vivo,
Eu morro,
Pensando no nosso amor.

Oliveira

sábado, 9 de agosto de 2008

Para dizer adeus



Da janela, vejo a tarde esvaindo-se em sangue . . .

Uma tristeza salpicada de púrpura

Encharca-me a alma . . .

Ah, triste como uma rua deserta na madrugada!

As rosas que enfeitavam o jardim de nosso amor

Feneceram,

O fogo da lareira que aquecia nossa paixão

Extinguiu-se;

Restam as cinzas de nossos propósitos,

A lembrança de nossas noites diante da lareira,

A nostalgia embalada ao sabor da música de Chopin

E uma saudade antecipada de quem fomos . . .

Partirei sem bater a porta

Para evitar o desgaste da despedida,

Para evitar as palavras vãs,

Para não lamentarmos os escombros de nosso amor . . .

Desculpa-me os erros,

Desculpa-me as faltas,

Desculpa-me se não soube o que fazer

Para acalentar teus anseios,

Desculpa-me pelas vezes em que me deixei levar

Pela correnteza do egoísmo,

Desculpa-me se não soube amar-te:

Lamento muito por nós dois,

Mas meu coração não se contenta com nada,

Meu coração não aprendeu nada . . .

Meu coração velho casarão sem portas nem janelas,

Meu coração catedral fechada,

Meu coração Saara ao meio-dia,

Meu coração terra de miragens,

Meu coração oásis no meio do nada,

Meu coração ave de arribação . . .

Desculpa-me as mágoas . . .

Vou para não voltar:

Meu destino é caminhar sempre sozinho . . .

Adeus! Adeus! Adeus! . . .


Oliveira