segunda-feira, 17 de março de 2008

Viagem ao exílio



Embarquei num navio de angústias sonâmbulas
Por oceanos outonais cujo destino final
É naufragar num mar de folhas-mortas . . .
Pouco me importa! . . .
Bebo vinhos finos numa taça de amargura,
Entorpeço-me com ópio por distração . . .
Mergulho numa Veneza-de-tédios,
Numa masmorra de silêncios depostos . . .
Minha memória esqueceu o caminho de regresso,
Minha vontade jaz paraplégica no tombadilho . . .
Descubro que a primavera de outrora extraviou-se,
Irremediavelmente,
Que o amor desatinado e tenaz não foi mais que uma verdade efêmera,
Que o passado é uma mentira . . .
Meu Deus! . . . Meu Deus! . . .
A vida acumulou entorpecentes montanhas de lixo nostálgico em meu coração -
Meu pobre coração morre lenta e inexoravelmente como um rio poluído . . .
A solidão purificou as lembranças mais amargas,
O tédio instalou-se em minha vida com seu manto bordado de indiferença . . .
Pouco me importa que o mundo desabe,
Que o mar levante-se em fúria cega
E que as vagas engulam este navio . . .
É-me, totalmente, indiferente! . . .
Deixo-me ficar no convés, vestido de alheamento,
Cadáver de quem fui . . .

Oliveira

quinta-feira, 6 de março de 2008

Carta não enviada a um amor platônico



Meu amor, teus olhos longínquos despertam em mim
Imagens de paisagens exuberantes
Que desejaria como refúgio para nosso amor.
Olhos castanhos que refletem castelos mouriscos
Nos quais me perco por labirintos de me encontrar.
Os castelos estão num vale coberto de flores de colorido diverso.
Um rio de águas cristalinas corre mansamente em direção ao mar distante e
Reflete o quase inexistente azul do céu e o colorido das flores
Que contrastam com o verde frondoso das poucas árvores majestosas
E de existência secular.

Meu amor, estás sempre com o olhar distante, fechada em teu mundo. . .
Se sorrisses para mim, sentir-me-ia possuído por uma emoção ímpar,
Diante de uma paisagem com cachoeiras que cantam uma sinfonia
De murmúrios em parceria com o cântico dos pássaros.
E eu, criança maravilhada, deixar-me-ia levar pela mão
Por essa paisagem encantada . . .
Se sorrisses, algo mágico sucederia: fogos-de-artifício desmanchando-se
Em cascatas de risos na noite enluarada, orgias desmanteladas
regadas a vinho . . .

Meu amor, tua pele clara exala o perfume dos lírios
Que enfeitam os jardins japoneses e tornam agosto cheio de sutilezas.
Olho-te e descortina-se diante de mim a simetria quase-perfeita
De uma cidade marroquina com suas casas brancas,
Despertando para a ardência de um dia de sol intenso.

Meu amor, és linda e enigmática como o mês de agosto:
Tens os mistérios e os encantos dos dias ensolarados,
A suavidade da brisa que sopra soberana pelas praias de areias brancas
E toca de leve as folhas das palmeiras
Que embalam meu sonho de ter-te em meus braços.

Sonho-te desnuda, oh meu amor, à beira-mar, sob a luz do luar.
Como és bela!
Sinto teu cheiro: sou o erotismo que desperta tua libido;
Sou a essência molecular do cio que percorre teu corpo
Em avalanches metamorfoseantes
Que desencadeiam a ativação de todos os sentidos;
Sou o desejo em crescente efervescência que corre por tuas veias
Como lavas de um vulcão em contínua erupção;
Sou o cheiro embriagador de tua genitália que a brisa marinha traz
E que sibila, serpenteia, ondeia em espirais na busca cega e desenfreada de gozo.

Meu desejo por ti é ardente como a fome de um leão
Diante da visão de uma gazela alheia ao perigo.
Meu desejo por ti possui a beleza devastadora do mar em fúria,
Avançando contra os rochedos com uma força intrigante e avassaladora.
Meu desejo por ti alberga a velocidade desordenada e destruidora dos ciclones
Que devastam as praias orladas de coqueiros.
Meu desejo por ti é uma antologia pornográfica,
Colhida em todas as revistas e filmes, numa seqüência interminável de imagens,
Que se chocam de cara contra teu puritanismo de donzela recatada.

Vejo-te.
Sou a serenidade e a suavidade de uma pacata aldeia cravada entre montanhas.
Sou um dia outonal numa cidade mourisca,
Sou as folhas rubras arrastadas pela brisa,
Sou o desnudamento colorido de todas as árvores
Que se preparam para enfrentar o inverno.
Sou o dolente ocaso , visto de uma colina majestosa,
Que tem a seus pés a imensidão de um vale florido.
Sou a nuvem passageira que se desfaz em chuva-abraço-envolvente em teu corpo quente.
Sou o torpor-cortina-de-sono que fecha teus olhos.
Sou as imagens oníricas que colorem teu adormecer.

Meu amor, oh meu grande bem, teu olhar distante são saveiros
Que aguardam a hora de partir à beira de um cais desértico;
São naus que singram para o destino-solidão;
São navios-silhuetas-embaçadas diante de marejados-olhos-saudades.
Do cais, vejo-os partirem, vejo-os saindo da barra,
Vejo-os-os entrando em mar aberto,
Vejo-os sumirem na distância: minúsculos pontos,
Vejo-os fumo na imensidão . . .
Meus olhos estão marejados,
Meu coração soluça lágrimas amargas . . .

Oliveira

domingo, 2 de março de 2008

Meu coração



Meu coração cais sem embarcações;
navio encalhado ao largo;
âncora esquecida no fundo do mar;
barco velho de quilha virada numa praia deserta.
Meu coração escombros de um império ignoto;
salão suntuoso que guarda a memória pomposa
de um tempo que ruiu;
cárcere irremediavelmente fechado -
o carcereiro atirou a chave ao mar.
Meu coração aldeia saqueada por bárbaros;
cidade arrasada pela fúria cega da natureza;
beco escuro onde se cometem atos torpes;
cacimba vazia em leito de rio seco.
Meu coração gaveta por arrumar;
baú empoeirado no sótão da quinta;
rosa murcha guardada num livro de poesias;
folhas-mortas nas alamedas do esquecimento;
porão de escombros do castelo de areia que desmoronou.
Meu coração pórtico partido para o infinito;
ponte que liga o nada a coisa nenhuma;
cortina de bruma no horizonte incerto da felicidade;
livro do desassossego esquecido num banco de praça;
taça de cristal espatifada no chão da lógica;
mala esquecida no bagageiro do trem da alegria . . .
Meu coração grito de desespero sem eco nas cordilheiras da alma;
lareira apagada no inverno de ser . . .
De ser qualquer coisa:
fome de retirante,
sede de flagelado,
ânsia de náufrago,
delírio de bêbado,
angústia da tarde que finda ensangüentada . . .

Oliveira

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Ode outonal



Se pudesse eleger minha paisagem de coisas memoráveis,
Elegeria o velho casarão da quinta de minha infância perdida,
Localizado numa aldeia distante, num outono de melancolia amarelecida,
À hora crepuscular, com o repicar de sinos, ao longe . . .

Outrora eram soluços graves de violinos,
Lamentos magoados de violões,
Langor dolorido de piano,
Janelas abertas para o vale em ouro,
Árvores vestidas de tristezas depostas e de mágoas antigas.
Recordo, e minha alma se enche de uma ânsia pálida,
De uma saudade brumosa . . .

Hoje sei que minha alma pressentia o cárcere mudo,
A dor no desamparo do calabouço . . .
Eu não tinha o coração partido,
Não sabia interpretar com clareza o turbilhão de emoções gris
Que se agigantava quando, ao longe,
Soava a hora do entardecer . . .

Ah, meu Deus!
Hoje são girassóis de tédio,
Velhas chagas abertas,
Réquiem do sol nas horas trêmulas do ocaso,
Dolências de lírios e de rosas,
Vento em atropelo no ar que alberga folhas-mortas
Que se desprendem atônitas, amareladas e
Que se deixam levar entorpecidas, ébrias e decaídas . . .

Ouço, vindo de muito longe,
O dobre dolente dos sinos de minha infância perdida -
Pipa feita com as cores dos sonhos,
Planando majestosa na palidez azul do céu, na tarde infinda . . .
Por certo, dobram por meus desenganos, pela nostalgia que sinto
Ou pela assombrosa saudade dos dias que se perderam no tempo . . .
Dobram, dobram e dobram por meu espanto
Diante desta hora vestida de púrpura,
Hora em que não sei o que fazer de mim . . .

Outono. Fim de tarde.
Tudo parece diluir-se em cores fortes e sossego!
Um vento brando toca as folhas-mortas
Que rodopiam num balé triste e sincronizado . . .
Os pássaros cantam seus últimos acordes sonoros,
Agradecendo o dia que se esvai em sangue . . .
Ouço Chopin diante da lareira para amenizar as saudades
Que entristecem meu coração . . .

Meu Deus! Outono!
Tempo de acordar os velhos fantasmas adormecidos,
Enxotá-los ao diabo que os carregue . . .
Arrumar as gavetas: jogar fora velhas recordações;
Chorar rios de lágrimas diante de velhas cartas de amor,
Embriagar-me com absinto,
Encharcar-me de lembranças caducas . . .
Outono! Folhas-mortas! Tédio de ser! . . .

Oliveira

domingo, 24 de fevereiro de 2008

O grito




Meu grito emerge
Do abismo de minha solidão,
Agiganta-se,
Procura encontrar eco na aridez dos desertos,
Nas montanhas longínquas,
Na imensidão dos mares,
No tumulto dos centros urbanos . . .

Oh, transeunte do acaso,
Na esquina de uma rua qualquer,
Ouve meu grito de socorro!
Arranca-me dessa solidão,
Dessa masmorra em que me enclausurei!
Ressuscita-me para a frivolidade do cotidiano!

Hoje, quero perder-me pelas vielas de ser,
Quero filosofar diante de um balcão de botequim,
Quero rir de tudo, de todos, da vida, de mim mesmo;
Quero chorar todos os rios que deságuam em mim;
Quero embriagar-me, inebriar-me, entorpecer-me
Com todas as delícias clandestinas . . .
E depois . . . Depois . . . Ah! . . .
Pouco me importa o que venha depois! . . .

Oliveira

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Carrossel



Gira carrossel de minha infância,
Gira no tempo que se perdeu,
Gira nas noites juninas,
Gira nas festas natalinas dos velhos parques de diversões,
Gira cheio de magia, indiferente à passagem do tempo,
Gira colorido, iluminado, velha fábrica de sonhos
Que se desfizeram ao som de marchas fúnebres.
Meu Deus, minha infância perdida! . . .
Os cavalinhos subiam e desciam
Enquanto o carrossel dava voltas,
Embalando a fantasia da criançada feliz e indiferente
À destruição de todos os nossos castelos de sonhos . . .
Evoco essas lembranças e vejo o parque de diversões,
O carrossel, os cavalinhos, as crianças -
Meu Deus, e eu sendo uma delas . . . -
Girando, girando num afastamento saudoso, longínquo
Para as terras do nunca-mais . . .
Minha alegria foi-se com minha infância perdida . . .
Quem fui extraviou-se no desenrolar do novelo da vida . . .
Quem sou desconhece-me.
Carrego comigo um baú cheio de ilusões caducas;
O sótão de minha alma reclama uma arrumação:
Fazer uma fogueira dos desenganos, dos dissabores,
Das decepções, dos amores malogrados,
E jogar as cinzas dos propósitos mortos
Na púrpura do ocaso, à beira-mar . . .

Oliveira

Embriaguez




Tranquem todas as portas,
Favoreçam-me com sua ausência,
Vão para o raio que os parta!
Quero ficar sozinho: basto-me com minha solidão!
Quero embriagar-me!
Quero sossego!
A mim, basta-me uma janela aberta para o mar,
Uma garrafa de vodka,
Uma música que embale minhas carências.
Quero mergulhar de cabeça no abismo de quem sou e desconhecer-me . . .
A voz de Nana Caymmi . . . Maravilhosamente fossífera:
Sua voz me conduz por veredas tortuosas
Que desembocam em precipícios de mim . . .

Bebo: embriago-me, entorpeço-me, inebrio-me de sensações desmanteladas.
E daí? Deixem o mundo cair! Pouco me importa!
Tratados de Teologia, Filosofia e Psicologia -
O diabo que os carregue . . .
Em séculos de existência, não deram à humanidade
Senão uma concepção vaga da idéia de Deus,
Um falso rasgo de luz por trás de uma cortina de bruma.
A mim, pouco me importam, visto que não curam minha dor!
Para o inferno todos os teólogos, filósofos e psicólogos,
mas sem mim!
Por que compartilharia o mesmo espaço com essa gente
Que se envaidece e que se orgulha de sua ciência?
Prefiro as filosofias aprendidas no balcão do botequim da esquina!
Arre! Que monólogo levado da breca!
Se continuar assim, ficarei sóbrio!

Não. Não quero ficar sóbrio.
Neste momento a sobriedade apavora-me.
Quero embriagar-me e se isso não surtir efeito,
Quero também dopar-me com ópio!
Não quero pensar. Não posso pensar.
Pensar dói. Pensar corrompe!
O pensamento anda trôpego pelos becos escuros
E lamacentos da mente, a dopar-se de adrenalina, dopamina
E sei lá mais o quê: um malandro, um engodo!
Não me convém como companhia.
Prefiro minha solidão.

A tarde cai. O mar está azul-esverdeado.
Ao largo, muitas embarcações.
Vasculho indícios: outrora fui tão feliz diante de outro mar! . . .
A janela de meu quarto descortinava-se para o mar;
Tinha um jardim com rosas narcisos, crisântemos e
Muitos girassóis de olhos arregalados para a imensidão marinha.
Ah, e que sossego na velha casa de minha infância perdida!
Em dias de sol, soltava pipa - tão colorida e majestosa em sua leveza!
Meu Deus, quem me roubou a criança que fui?
Que fizeram de meus lençóis perfumados de alfazema?
Por quais caminhos deixaram-me
Para que eu me perdesse de mim?
Meu Deus, sei que me desavim!
Outrora . . . Fora tão feliz e não sabia!
Hoje, resta-me essa desesperança, essa dor no abismo da alma . . .
Meu Deus, meu Deus!
Quero embriagar-me!
Quero sossego!
Quero ficar sozinho!

Oliveira