quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Velho casarão da quinta




O casarão colonial fica numa pequena elevação,
De frente para um vale orlado por montanhas azuladas.
A quinta estende-se até a margem de um rio
Que corre mansamente em direção ao Oeste.
Juncais enfileiram-se majestosos às margens,
Outras vezes cedem lugar às árvores seculares de troncos rugosos
Que se debruçam sobre o rio numa reverência respeitosa;
Pequenas embarcações balançam levemente ao sabor da brisa
Quase marinha que sopra numa carícia maternal.

Estou sentado na grande janela que se abre para o imenso vale:
Olho para tudo isso com uma indiferença desdenhosa;
Meus sentidos viajam por outras paisagens e
Trazem-me à lembrança a contemplação de quem fui.

Caminho às margens de um rio de águas escuras
Que corre silencioso por entre árvores de esquecimento.
Outono . . .
Uma brisa sopra leve e arrasta para o leito do rio
As folhas-mortas que bóiam mergulhadas em alheamento;
Minha alma veste-se de uma confusão quieta . . .

Ao longe, os sinos anunciam o avanço dolente do entardecer
Que devora as horas envoltas em cinzas de tédio.
Meus devaneios tolos cavalgam, espectros de sonhos,
Na bruma que se ergue sobranceira em meu horizonte interior.

Quando julguei ter encontrado o amor, enganei-me:
Senti apenas seu aroma e conheci somente a periferia de sua grandeza;
Senti como se tivesse chegado a uma grande metrópole e
Tenha conhecido, equivocadamente, somente
Seus subúrbios fétidos e feiosos.

O canto dos pássaros desperta-me para a realidade da quinta . . .
Outrora, o menino que fui brincara por estes campos verdejantes,
Possuído de alegria contagiante . . .
Minha infância perdida! . . .
Vejo o menino que fui totalmente alheio a quem sou:
Sou como naus embandeiradas que sucumbiram
Na aventura de se lançar ao desconhecido . . .

A concretização de conquistar o mundo
Caducou no baú empoeirado,
Esquecido num canto qualquer do sótão da velha quinta . . .
Desviei-me da rota, perdi a bússola com a qual me orientaria;
Minha embarcação adernou . . .
Perdi-me de mim . . .
Sou órfão e tenho a vida por madrasta.

Quantas vezes senti-me um imperador,
Adornado com vestimentas bordadas com fios de ouro,
Sentado no trono de meu abandono! . . .
Quantas vezes julguei conquistar e subjugar
Outros impérios ao meu despotismo impiedoso e cruel! . . .
Tudo mentira: meu império de trapeira ruiu
Como castelos de areia diante da fúria do mar
Que avança sobre as praias orladas de palmeiras
E casarões mouriscos . . .

Anoitece . . . Fecho a janela . . . Cerro as cortinas . . .
Acendo a lareira . . . Ponho um disco para tocar . . .
A música inunda o ambiente de nostalgia . . .
Sinto-me envelhecido: meus ídolos estão passando
Para a galeria da parede da memória . . .
Um absinto talvez aqueça-me a alma
Ou cause-me náuseas . . .
Meu Deus! Viver é uma náusea! . . .

Oliveira

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Cadáveres de sonhos




Disperso-me . . .
Viajo por paisagens de sonhos,
Sonhos que são os cadáveres de outros sonhos
Que se extraviaram no desenrolar do novelo da vida . . .
Sonhos de outrora, de quando andava pela vida
Alheio à violência urbana,
Às conseqüências desastrosas das guerras;
De quando ainda não tinhas cicatrizes de desenganos . . .
Um brisa leve toca a copa das árvores frondosas
Que margeiam o rio que corre sonolento . . .
Sou um barco velho que jaz cadáver
De olhos arregalados para os juncos negros
Que se vergam submissos ao vento frio . . .
Tudo tão inútil,
No silêncio da tarde que vagueia sonâmbula
Pela imensidão azul desse céu de abril! . . .
Flores silvestre (parecem donzelas
Que se debruçam à janela com olhos sorridentes
Para os rapazes que as olham com fingida indiferença) . . .
As flores silvestres perfumam os caminhos
Que levam aos montes distantes . . .
Minha infância perdida . . .

Oliveira

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Ansiedade



Quando não te vejo, perco o rumo.
Vagueio à esmo. Mergulho numa ansiedade sem fronteiras.
Meu céu interior tinge-se de cores esmaecidas.
Ergue-se em meu horizonte interior, uma densa cortina brumosa.
Sinto ímpetos de embriagar-me nos bares da vida,
Andar estrangeiro pelas ruas desertas,
Alheio às luzes de néon, às pessoas,
Imerso em outra realidade menos crua.

Oliveira

sábado, 2 de fevereiro de 2008

O homem velho



O homem velho descobriu que a vida é uma escola
Onde se aprende a ter paciência para viver e não sofrer;
Sabe que a realidade só pode ser vista, irremediavelmente,
em preto e branco;
Que somente a fantasia apresenta-se, totalmente, em cores.
Simplesmente caminha
Sem se preocupar para onde vai ou por onde vai . . .
Vai por onde o levam seus passos . . .
Aprendeu que o coração comporta-se como uma criança
Que não mede a conseqüência de seus atos;
Conhece o gosto amargo da taça dos desenganos,
Descobriu a inutilidade de lutar contra o fantasma da solidão,
Guarda com carinho as lembranças de uma infância feliz
E não alimenta sonhos quanto ao futuro,
Porque intui que ele virá fugaz como as aves de arribação . . .

Oliveira

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Poemeto 07




Teu medo, tua indecisão desafinam a orquestra
Que embala meu sonho de vivermos um grande amor
E fazem com que a lua,
Que idealizei para enfeitar nossa noite,
Despregue-se e fragmente-se inútil,
Inútil como meu amor por ti.

Oliveira

domingo, 13 de janeiro de 2008

Teimosia



Sou teimoso;
Insisto em fabricar sonhos,
Mesmo sabendo que irão desfazer-se em fumo
Na palidez do crepúsculo outonal.
Meus sonhos, vejo-os naufragados
Qual barquinhos de papel , no torvelinho revolto
Das águas turvas do rio de lágrimas
Que brota de meus olhos marejados,
Brumosos, envelhecidos dessa espera inútil.
Tarde fria.
Um manto de tristezas antiqüíssimas
Desabou sobre mim, deixou-me assim:
Rainha destronada, humilhada, aniquilada
Diante deste imenso e suntuoso salão –
Antes fosse uma mulher do povo,
Mas feliz, amada
Diante de uma sala rústica.

Oliveira

Dilacerado


Meu coração dilacerado pelas recordações
É um ocaso ensangüentado,
Esvaindo-se em angústias depostas,
Em desejos malogrados,
Em saudades atormentadas por gestos inúteis.
A tristeza atravessa em diagonal,
Com pompas de rainha destronada,
O universo de minhas recordações,
Com seu manto cinzento e obscurece,
Põe brumas em meu horizonte.
Oh, saudade, por que te vestes com pompas de rainha,
Se te despojaram do cetro e da coroa?
Oh, taça transbordante de bebida amarga,
Lampejo de falsas alegrias,
Torpor escarlate de lua-cheia nas noites de abril!
Ah, o ópio de ser qualquer coisa para além
Da silhueta de montanhas azuladas ao sul de tudo!
Ah, gotejar sonolento das horas
Costurando o manto esgarçado do tempo! . . .

Oliveira