sexta-feira, 23 de maio de 2008

verbete 07


Outono - 1. monotonia de aldeia adormecida; 2. dolência de sino
na hora crepuscular; 3. botão de rosa amarelecida entre as
páginas de um livro de poesias; 4. acordes longínquos de violino
na tarde vazia; 5. paisagem esmaecida em púrpura gasta;
6. folhas-mortas rodopiando atarantadas ao sabor do vento;
7. nostalgia empoeirada do velho sótão da quinta de minha
infância perdida; 8. decorrer sonolento das horas devorando o
tempo; 9. angústia de charco ao pôr-do-sol; 10. solidão das árvores
despidas ao luar; 11. ponte entre a nostalgia e o tédio.

Oliveira

terça-feira, 20 de maio de 2008

Momentos de ser . . .



A criança caminha feliz no mundo da fantasia,
De mãos dadas com a inocência;
Constrói seu caminho com a magia dos sonhos;
Sorri, porque tudo é esquecimento e encantamento . . .
O adolescente cai no abismo da realidade,
Apavora-se diante de um mundo conflitante,
Alia-se à rebeldia para combater o inimigo imaginário:
Com sua metralhadora nas mãos, lança projéteis de ódio
Para todos os lados, numa fúria de mar em maré-cheia -
Quantos desatinos, quantas batalhas perdidas! . . .
O adulto traz em si a mansidão do mar em maré-vazante,
Tenta conciliar seu mundo interior,
Cuida de suas feridas,
Arruma os escombros de seu império ignoto,
Tem a prudência como conselheira,
Procura viver em paz consigo mesmo e com o mundo . . .
O velho adquiriu a sabedoria e
Caminha tranqüilo,
Rumo ao pórtico que se abre para o infinito,
Como um rio que corre para o mar,
Alheio aos rumores cotidianos,
Senhor de seu mundo,
Senhor de si . . .

Oliveira

Ah, teu corpo! . . .



Teu corpo transbordante de sensualidade insinua-se,
Sem que tenhas consciência disso,
E desperta-me a luxúria, a libido . . .
Entre teu corpo e meu desejo dele,
Ergue-se um imenso mar de sargaços
Com naus que partem para o indefinido . . .
Sinto-me como alguém que morre de sede diante do mar:
Ver teu corpo, mas não poder tocá-lo, meu desejo naufraga
Num oceano noturno sem faróis para me guiar . . .
Fabrico sonhos de possuí-lo;
Imagino tê-lo desnudo diante de mim,
Por entre minhas mãos que percorrem lassas
A maciez de pêssego e se detêm em cada detalhe . . .
Transbordamento de erotismo:
Êxtase . . .
Ah, que seria teu gozo, meu gozo,
Teu gozo em meu gozo . . .

Oliveira

terça-feira, 6 de maio de 2008

Tarde de domingo



Solidão . . .
A tarde avança para o crepúsculo preguiçosamente.
Desértica tarde de domingo: monótona, calada, entediada de si.
Creio que o amor acaba numa tarde assim,
Mesclado de tédio, desespero e tristeza de sol-poente
Para além de charcos-solidão . . .
Sozinho na sala povoada dos fantasmas que outrora fomos.
Teu perfume ainda passeia montado na brisa que entra
Pela janela aberta para o mar.
Na vitrola, um blues acalanta lembranças de nosso amor.
Nosso destroçado amor.
Restaram os escombros e essa dor pungente,
Esse vazio cheio de interrogações.
Bebo. Embriago-me com absinto.
Bebo as águas passadas, os desenganos, os desencontros.
Embriago-me de mim, de ti e de nós . . .
E todas essas águas encharcam-me,
Avolumam-se dentro de mim numa volúpia desaguarem no mar . . .
No mar das desilusões, deságuo minhas lágrimas,
Que num turbilhão de fúria e revolta incontidas,
Levantam-se em ondas gigantescas,
Avançam rumo à praia e rebentam em sons e espumas
Numa inquietação angustiante. Releio tuas cartas.
Cartas de fingido amor. Que tarde inútil!
O amor acaba diante do mar azul para recomeçar
Numa mesa de bar ou numa transversal do tempo;
O amor acaba e leva consigo um pedaço de quem fomos;
Quem fomos caminha em direção oposta,
Alheados de si.
Fim de tarde. Inútil tarde de domingo . . .
Inútil como meu vaguear entorpecido
Pelos mares da ilusão.
A tarde se esvai, no declinante desmoronamento
Das horas-fúnebres, tingida de vermelhidão -
Imensa cicatriz em meu peito arfante.
Minha realidade imediata é este entardecer
Ensangüentado, este blues triste
Que Billie Holiday canta, acarinhando-me a alma-partida.
Divago ébrio, entorpecido, confuso
Como o conteúdo de uma gaveta por arrumar . . .
Domingo. Que dia horrível!
Que tarde vazia, tão clara e sem fim! . . .
Funerais do amor numa cidade mourisca,
Na tristeza púrpura do ocaso . . .
Pétalas de rosas que a brisa leva para o mar . . .
Lágrimas amargas molhando as pedras seculares
Da rua tortuosa, antiga, inútil como tudo! . . .

Oliveira

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Saudosismo




Saudade! . . .
Quanta saudade! . . .
Saudade cada vez mais tanta! . . .
Saudade vestida com o manto outonal,
Saudade orquestrada com os acordes de piano e violinos;
Saudade de minha infância extraviada na curva do tempo
Que se perdeu na poeira dos propósitos mortos;
Saudade até do que não foi . . .
Saudade do velho casarão da quinta,
Saudade da velha quinta com seu imenso quintal
Onde brincávamos sob a sombra de frondosas mangueiras;
Saudade da velha jaqueira onde costumava fabricar sonhos -
Ah, meus sonhos perderam-se pelos descaminhos desta vida! . . .
Saudade dos fins de tarde hibernais
Que decorriam sonolentos, brumosos . . .
Saudade das noites intermináveis, povoadas de relâmpagos, trovões,
E o vento soprava furioso, despertando em nós os fantasmas do medo;
Saudade das pipas coloridas que pairavam etéreas no azul
Quase inexistente do céu de julho;
Saudade das tias maternas que nos visitavam,
Trazendo novidades para nosso paladar;
Saudade do jardim repleto de papoulas e rosas de várias tonalidades,
Dos cachos de flores amarelo-ouro de minha acácia primaveril,
Dos girassóis de olhos arregalados de espanto,
Das borboletas matutinas de cores extravagantes,
Voejando pelo jardim –
Ah, meu jardim de um colorido festivo! . . .

Dos beija-flores dançando seu balé rítmico
Ao som alucinante de tambores tribais,
Eco longínquo de mãe África selvagem . . .
Saudade das noites juninas com suas fogueiras,

Saudade dos carrosséis girando fábrica de sonhos
Nos festejos do padroeiro: Bom Jesus dos Passos;
Saudade dos mortos queridos que fui perdendo
No desenrolar monótono dos dias . . .
Saudade dos sonhos que se deterioraram,
Da inocência que se diluiu em púrpura . . .
Saudade! . . .
Quanta saudade! . . .
Saudade do tudo quanto perdi irremediavelmente! . . .

Oliveira




sexta-feira, 18 de abril de 2008

Agosto




Dos doze, és o injeitado, o indesejado.
Teu nome é sinônimo de desgosto.
Todos ou quase todos viram-te a cara.
És o único a iniciar-se aziago.
És a ironia destilada, a antítese extravagante,
O cume do pico-alegria, o fundo profundo do poço-tristeza,
O bruxo e o antídoto de todas as bruxarias.
És a intersecção entre a candura angelical e a carranca abominável
do algoz que comete atrocidades inomináveis.
És dúbio, porque albergas em ti o verso e o reverso das coisas.
És ambíguo por natureza: tens alguma coisa de estival
E qualquer coisa de outonal.
És o avesso, o disparate, o tormento cruel entre
Querer esquecer e a impossibilidade do esquecimento.
Há gosto de fruto temporão no ar,
Há gosto acre-doce de sangue e gargalhadas, de risos e de lágrimas;
Há gosto de perfume de lírios ao luar, de brisa marinha
Que acaricia languidamente o corpo de meu pressuposto amor:
Meu amor tem os olhos de tempestade ao entardecer,
Olhos de saveiros naufragados,
Olhos de mar azul-turquesa no intervalo entre
A maré-vazante e a maré-cheia.
Tens uma beleza magnífica:
A mão divina pinta, todos os dias, com excessos de perfeição,
Tua aurora e teu ocaso;
Teus dias sucedem-se plenos de luminosidade;
Teu céu é de um azul ímpar;
tuas noites são límpidas e estreladas, e
A lua mostra-se mais majestosa em sua beleza dura e fria.
Agosto, preterido dos poetas,
Quisera eu cantar-te em odes,
Quisera eu ter palavras para falar-te de
Meu bem-querer por ti . . .
Quisera . . .

Oliveira

segunda-feira, 17 de março de 2008

Viagem ao exílio



Embarquei num navio de angústias sonâmbulas
Por oceanos outonais cujo destino final
É naufragar num mar de folhas-mortas . . .
Pouco me importa! . . .
Bebo vinhos finos numa taça de amargura,
Entorpeço-me com ópio por distração . . .
Mergulho numa Veneza-de-tédios,
Numa masmorra de silêncios depostos . . .
Minha memória esqueceu o caminho de regresso,
Minha vontade jaz paraplégica no tombadilho . . .
Descubro que a primavera de outrora extraviou-se,
Irremediavelmente,
Que o amor desatinado e tenaz não foi mais que uma verdade efêmera,
Que o passado é uma mentira . . .
Meu Deus! . . . Meu Deus! . . .
A vida acumulou entorpecentes montanhas de lixo nostálgico em meu coração -
Meu pobre coração morre lenta e inexoravelmente como um rio poluído . . .
A solidão purificou as lembranças mais amargas,
O tédio instalou-se em minha vida com seu manto bordado de indiferença . . .
Pouco me importa que o mundo desabe,
Que o mar levante-se em fúria cega
E que as vagas engulam este navio . . .
É-me, totalmente, indiferente! . . .
Deixo-me ficar no convés, vestido de alheamento,
Cadáver de quem fui . . .

Oliveira