segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Verbete 01



Amor – subst. 1. fantasia equivocada. 2. sentimento cego e obsessivo. 3. abstração, malogro, mentira. 4. endeusamento de outrem. 5. pesadelo disfarçado de sonho. 6. poço vazio, terra movediça, lugar ermo. 7. engano que traz desengano por trás. 8. sentimento de apego e interesse: disputa de opostos, conjugação antagônica de sentimentos (possessividade x submissão, domínio x subjugação). 9. perda do leme, mergulho na bruma. 10. caos.

Oliveira

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Folha de papel em branco




Desfolho a rosa do viver
Como quem arranca as folhas de um diário, uma a uma;
Cada pétala conta um pouco de minha vida;
Cada pétala leva consigo:
Um grito engasgado na garganta,
Um soluço sufocado diante da janela aberta para a rua deserta,
Uma mágoa acalentada na solidão das noites insones,
Uma saudade amarelada pelo tempo,
As cinzas do que restou de um coração partido,
O gosto amargo dos desenganos,
A cor gris dos sonhos desfeitos numa tarde vazia e sem fim . . .
Leva-as . . . Oh vento!
Leva-as como se fossem as folhas-mortas do outono,
Leva-as para as distantes terras do esquecimento . . .
Passa . . . Oh vento!
Passa e apaga tudo . . .
Quero passar a limpo minha vida,
Quero sentir-me como se fosse uma folha de papel em branco . . .
Uma folha de papel em branco sobre uma mesa qualquer,
Qualquer mesa, pouco importa . . .

Oliveira

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Delírios nocturnos




Quantas palavras, tantas palavras
Cujo significado nos causam espanto;
Outras são carícias de seda chinesa
Sobre nossos corpos desnudos,
Transbordantes de sensualidade.
Nosso ninho de amor inundado
Com a avalanche de significados
Que elas suscitam:
Sonoridade de fontes que gorgorejam,
De canto de pássaros,
De sussurros de brisa que sopra
Segredos de cristais que brindam
O compartilhar de momentos felizes . . .

Pela janela aberta, sobre a cidade nocturna,
Uma infinidade de sons adentram
E dão-nos notícias de que, lá fora,
Apesar do aparente silêncio da hora-morta,
A vida pulsa numa convulsão incessante, contagiante . . .
O murmúrio das ondas chegam até nós
Como uma vaga impressão de gozo ao crepúsculo,
De contacto de nossos corpos sobre a areia branca . . .
Ao longe, o apito do trem desencadeia
Uma seqüência de imagens de paisagens capim-rosa-chá,
De pequenas povoações com suas casas coloridas,
De gente sentada nas calçadas,
De crianças com rechonchudas faces-maçãs,
De montanhas que se insinuam azuladas,
Na imprecisa distância,
De curvas que descortinam paisagens verde-marrom,
De casinhas brancas dentro de cercas
Que são desenhos feitos a lápis de cor . . .

Ah, meu amor, esqueçamos o lá fora,
Fujamos para o país dos sonhos,
Percorramos silenciosos os labirintos do esquecimento;
Ergamos nosso castelo de abandono
Num vale verdejante, rodeado de montanhas azuladas,
Onde a primavera é eterna,
Onde as águas em cascatas e cachoeiras
Cantam antigas cantigas de ninar
Para embalar nosso sonho de felicidade . . .

Oliveira

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Malmequer despetalado




Releio as páginas de minha vida:
Invade-me um misto de decepção e
Desencanto ao constatar
Que construí um império ignóbio e
Que não passei de um imperador ignoto.

Revejo uma trajetória tortuosa,
Cheia de altos e baixos, muitas omissões,
Alguns atos de bravura . . .
Acovardei-me diante de algumas situações,
Em outras, demonstrei destemor;
Não há grandes conquistas,
Não há nada que valha encher-me de júbilo.
Teci, no decorrer dos anos,
Muitos sonhos ornados de inflamadas pompas,
Mas o tempo os devorou impiedosamente . . .

Viver é muito perigoso . . .
Machuquei-me tantas vezes! . . .
As feridas não cicatrizam nunca . . .
Pelo caminho, encontrei quem soubesse tocar,
Cruelmente, nas feridas, fazê-las sangrar . . .
Horas amargas que despertaram em mim
Ímpetos de vingança, vontade de trucidar,
Da matar pouco a pouco,
Gozando o desespero do tormento,
A agonia de ver esvair-se, romper-se a vida . . .

Outras vezes, encontrei quem soubesse despertar em mim
Sentimentos de ternura, de amor . . .
Horas de colorido primaveril,
De sol despontando em todo seu esplendor
No horizonte marinho,
Sorriso de cascata que enche de alegria
O universo tranqüilo da floresta de alheamento
Em que me refugio . . .

Ergui uma muralha de indiferença em torno de mim,
Vesti a máscara e esqueci-me de quem sou
Para ser o que desejam que eu seja:
Um estrangeiro, um rosto na multidão . . .
Desfolhando a rosa do viver, o malmequer da vida . . .

Oliveira

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Velho casarão da quinta




O casarão colonial fica numa pequena elevação,
De frente para um vale orlado por montanhas azuladas.
A quinta estende-se até a margem de um rio
Que corre mansamente em direção ao Oeste.
Juncais enfileiram-se majestosos às margens,
Outras vezes cedem lugar às árvores seculares de troncos rugosos
Que se debruçam sobre o rio numa reverência respeitosa;
Pequenas embarcações balançam levemente ao sabor da brisa
Quase marinha que sopra numa carícia maternal.

Estou sentado na grande janela que se abre para o imenso vale:
Olho para tudo isso com uma indiferença desdenhosa;
Meus sentidos viajam por outras paisagens e
Trazem-me à lembrança a contemplação de quem fui.

Caminho às margens de um rio de águas escuras
Que corre silencioso por entre árvores de esquecimento.
Outono . . .
Uma brisa sopra leve e arrasta para o leito do rio
As folhas-mortas que bóiam mergulhadas em alheamento;
Minha alma veste-se de uma confusão quieta . . .

Ao longe, os sinos anunciam o avanço dolente do entardecer
Que devora as horas envoltas em cinzas de tédio.
Meus devaneios tolos cavalgam, espectros de sonhos,
Na bruma que se ergue sobranceira em meu horizonte interior.

Quando julguei ter encontrado o amor, enganei-me:
Senti apenas seu aroma e conheci somente a periferia de sua grandeza;
Senti como se tivesse chegado a uma grande metrópole e
Tenha conhecido, equivocadamente, somente
Seus subúrbios fétidos e feiosos.

O canto dos pássaros desperta-me para a realidade da quinta . . .
Outrora, o menino que fui brincara por estes campos verdejantes,
Possuído de alegria contagiante . . .
Minha infância perdida! . . .
Vejo o menino que fui totalmente alheio a quem sou:
Sou como naus embandeiradas que sucumbiram
Na aventura de se lançar ao desconhecido . . .

A concretização de conquistar o mundo
Caducou no baú empoeirado,
Esquecido num canto qualquer do sótão da velha quinta . . .
Desviei-me da rota, perdi a bússola com a qual me orientaria;
Minha embarcação adernou . . .
Perdi-me de mim . . .
Sou órfão e tenho a vida por madrasta.

Quantas vezes senti-me um imperador,
Adornado com vestimentas bordadas com fios de ouro,
Sentado no trono de meu abandono! . . .
Quantas vezes julguei conquistar e subjugar
Outros impérios ao meu despotismo impiedoso e cruel! . . .
Tudo mentira: meu império de trapeira ruiu
Como castelos de areia diante da fúria do mar
Que avança sobre as praias orladas de palmeiras
E casarões mouriscos . . .

Anoitece . . . Fecho a janela . . . Cerro as cortinas . . .
Acendo a lareira . . . Ponho um disco para tocar . . .
A música inunda o ambiente de nostalgia . . .
Sinto-me envelhecido: meus ídolos estão passando
Para a galeria da parede da memória . . .
Um absinto talvez aqueça-me a alma
Ou cause-me náuseas . . .
Meu Deus! Viver é uma náusea! . . .

Oliveira

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Cadáveres de sonhos




Disperso-me . . .
Viajo por paisagens de sonhos,
Sonhos que são os cadáveres de outros sonhos
Que se extraviaram no desenrolar do novelo da vida . . .
Sonhos de outrora, de quando andava pela vida
Alheio à violência urbana,
Às conseqüências desastrosas das guerras;
De quando ainda não tinhas cicatrizes de desenganos . . .
Um brisa leve toca a copa das árvores frondosas
Que margeiam o rio que corre sonolento . . .
Sou um barco velho que jaz cadáver
De olhos arregalados para os juncos negros
Que se vergam submissos ao vento frio . . .
Tudo tão inútil,
No silêncio da tarde que vagueia sonâmbula
Pela imensidão azul desse céu de abril! . . .
Flores silvestre (parecem donzelas
Que se debruçam à janela com olhos sorridentes
Para os rapazes que as olham com fingida indiferença) . . .
As flores silvestres perfumam os caminhos
Que levam aos montes distantes . . .
Minha infância perdida . . .

Oliveira

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Ansiedade



Quando não te vejo, perco o rumo.
Vagueio à esmo. Mergulho numa ansiedade sem fronteiras.
Meu céu interior tinge-se de cores esmaecidas.
Ergue-se em meu horizonte interior, uma densa cortina brumosa.
Sinto ímpetos de embriagar-me nos bares da vida,
Andar estrangeiro pelas ruas desertas,
Alheio às luzes de néon, às pessoas,
Imerso em outra realidade menos crua.

Oliveira